2. ENTREVISTA 14.8.13

RA - "O MINISTRIO DO ESPORTE NO TEM UMA POLTICA"
O ex-jogador afirma que o governo s est preocupado com a organizao da Copa e da Olimpada e, mesmo assim, o Pas deve ter um fraco desempenho em medalhas na Rio 2016
por Dbora Crivellaro 

PLANOS - Ra est escrevendo seu segundo livro e quer voltar a estudar

Aos 48 anos, o ex-jogador de futebol Ra, camisa 10 da Seleo Brasileira na Copa de 1994, est cada vez mais envolvido com seus projetos de ao social, a Fundao Gol de Letra, criada em 1998 em parceria com o tambm ex-atleta Leonardo, e o mais recente, Atletas pelo Brasil, entidade nica no mundo que rene 61 esportistas do quilate de Lars Grael, Ana Moser e Magic Paula, campees de diferentes modalidades, em atividade ou no, que se uniram h sete anos com a inteno de propor  usando a fora de seus nomes e o peso de suas experincias pessoais  mudanas estruturais na poltica de esporte do Brasil. Dispenso mais de 50% do meu tempo para essas duas entidades, confessa Ra, muito mais seguro e descontrado do que nos tempos de jogador. H menos de um ms, na esteira das manifestaes que ocorreram no Pas, o Atletas pelo Brasil lanou um manifesto, reivindicando, entre outros pontos, mudanas na legislao que trata dos mandatos dos dirigentes esportivos. A seguir, o ex-jogador fala sobre suas expectativas, no momento em que todos os olhos se voltam para o esporte, s vsperas da Copa do Mundo e da Olimpada de 2016.

"O Marin representa uma dinastia que trouxe vcios, falta de transparncia, que defende interesses outros acima do esporte

A perda do Scrates me cutucou. Resolvi deixar a irreverncia dele me provocar mais, que no  o natural em mim, mas  o legado que ele deixou

Isto - Por que os srs., do Atletas pelo Brasil, decidiram divulgar o manifesto agora?

Ra - Porque a sociedade toda est se mobilizando, vide as manifestaes de junho. O momento tambm  oportuno porque o Brasil vai sediar os maiores eventos esportivos do planeta, a Copa do Mundo e a Olimpada. So eventos de esportes e em nenhum momento o governo falou o que vamos fazer para transformar essa atividade no dia a dia dos brasileiros. Nossa questo : o Brasil vai sediar grandes eventos, mas e o esporte no Pas? Qual  a situao dele? A gente sabe que est muito longe do ideal. E o que est sendo planejado para que isso mude? Muito pouco. A gente construiu o manifesto para tentar fazer dessa discusso uma prioridade.

Isto - O que os srs. reivindicam?

Ra - O manifesto toca em algumas questes que a gente julga primordiais, como mexer na legislao para limitar o mandato dos dirigentes esportivos. Para isso, estamos fazendo lobby mesmo, indo ao Congresso. Tambm reivindicamos a criao de uma comisso interministerial com participao da sociedade, com metas, estratgias, mtricas de avaliao e resultados claros. O terceiro ponto seria a apurao referente s denncias de violao de direitos humanos nesses grandes eventos, alm da exigncia de total transparncia. 

Isto - O sr. acha que ainda d tempo para mudanas estruturais, faltando um ano para a Copa e trs para os Jogos?

Ra - Com relao s medalhas, no d tempo. O Brasil deve subir no ranking porque est havendo muito investimento em atletas com potencial, que j estavam formados, mas esse nmero ser longe do ideal. Mas o mais importante no so as medalhas e sim o legado que esses eventos deixam, que vai muito alm deles. Se o governo comear algo agora, implantar uma poltica esportiva, ter resultados crescentes e permanentes. A gente no vai ter grandes resultados at a Olimpada, mas se tiver uma discusso mais ampla, teremos muitos avanos.

Isto - Assim que terminou a Olimpada de 2010, o Ministrio dos Esportes lanou uma srie de medidas de curto prazo, como o Bolsa Medalha. Como o sr. as avalia?

Ra - Esse imediatismo, que no existe s nos esportes,  um grande problema do Brasil. Quando voc faz coisas de curto prazo, acaba investindo muito mais, e para poucos, porque no existe essa cultura de esporte desenvolvida no Pas. A partir do momento em que as pessoas tiverem conscincia de que esporte  um direito, podero cobrar mais. 

Isto - Londres, que sediou os Jogos em 2012, conseguiu deixar esse legado?

Ra - Sem dvida. Desde 2005 eles tm vrios programas de planejamento de mdio e longo prazo para produzir impacto na vida das pessoas e se tornaram um pas olmpico no sentido mais nobre da palavra. Como resultado, os alunos tm hoje duas horas a mais de esportes na escola por semana. Isso trouxe melhoria no rendimento de outras matrias, como matemtica e lngua inglesa. So comprovaes de que o esporte pode ter um impacto muito mais amplo do que ganhar medalhas. 

Isto -  verdade que seu grupo tenta uma audincia, mas ainda no foi recebido pela presidenta Dilma?

Ra - Sim. Conversamos com a ministra Ideli Salvatti (Relaes Institucionais), chegamos ali perto do gabinete da Presidncia e ela garantiu que iria falar com ela. Porque a gente acha que  muito importante o governo federal assumir isso. Ns temos propostas concretas, com resultados, temos pesquisas feitas em conjunto com instituies srias, e estamos dispostos a ajudar. E a voc pega Lars Grael, Ana Moser, Flavio Canto, Kak, Magic Paula. Estamos oferecendo voluntariamente nossa experincia a servio da construo de um modelo melhor.  evidente que a gente sabe que a presidenta da Repblica tem muitas prioridades, mas  um grupo representativo que est se juntando e gostaria de ser ouvido. 

Isto - Como os srs. avaliam a atuao do ministro Aldo Rebelo? Ele j os recebeu?

Ra - O atual ministro do Esporte assumiu h menos de dois anos com uma misso clara, que  a de fazer os eventos acontecerem. Ento voc v o ministro viajando, inspecionando todas as obras. E a gente acha que no  incompatvel fazer os eventos acontecerem, mas a funo do Ministrio do Esporte  tambm construir uma poltica esportiva e envolver as outras pastas. E, atualmente, o Ministrio do Esporte no tem uma poltica. Logo que ele assumiu, falamos com ele. Houve uma ocasio em que dez atletas, campees olmpicos e mundiais, marcaram uma audincia com ele para falar de uma emenda a uma medida provisria que cuidava dos dirigentes esportivos. Eu estava nesse grupo e, nesse dia, ele no nos recebeu. Ns havamos feito uma mobilizao grande para ir para l. 

Isto - Por que o sr. nunca exerceu um cargo pblico?

Ra - Por opo. A minha forma de fazer poltica  essa, vou ser mais eficiente assim. Valorizo bastante quem est l, no Executivo ou no Legislativo, porque h muitos entraves, tem que ter um perfil que se adapte a isso, que saiba como trabalhar para obter resultados. Sempre quando vejo um santinho penso: nunca vou fazer isso na minha vida! Sou mais til e mais de bem comigo mesmo com essa forma de atuao, que tambm  um grande desafio. 

Isto - E o que o sr. acha dessa grita, durante as manifestaes, contra a realizao da Copa no Brasil?

Ra - A populao fala isso porque falta transparncia. Voc tem os motivos histricos do Pas: educao ruim, sade ruim. Voc v o Pas crescendo economicamente e os servios com uma qualidade baixssima. E, ao mesmo tempo, investimentos que trazem muitos benefcios para o setor privado sendo feitos, e com muito dinheiro pblico. Acho que essa equao botou a Copa como alvo. Existe superfaturamento, apropriao indevida? Vamos ver. Enquanto no houver transparncia, que no h porque a estrutura  fechada, haver reclamaes.

Isto - Como o sr. avalia a atuao de seu ex-colega de gramados, o agora deputado federal Romrio (PSB-RJ)?

Ra - Ele est sendo muito mais atuante do que muita gente esperava. Est sendo corajoso, se colocando. A gente est trabalhando com a equipe dele e de outros esportistas que esto no Congresso. Eu no quero estar no Legislativo, mas quem se arrisca, a gente tem de fazer de tudo para ser nosso aliado. 

Isto - Ele faz severas crticas ao atual presidente da Confederao Brasileira de Futebol (CBF), Jos Maria Marin.

Ra - O Marin representa a continuidade, uma dinastia que vem desde muito tempo na CBF e que trouxe vcios, falta de transparncia, defende interesses outros acima do esporte. Acho que tem de ter uma reviso disso, uma transformao. 

Isto - O sr. lanou um livro infantil, Turma do Infinito (Cosac Naify). Pretende escrever mais?

Ra - No pretendo ser escritor, no tenho essa pretenso, mas j estou terminando a sequncia da Turma do Infinito. Sempre gostei de escrever coisas curtas e as divido com pessoas prximas. Fiquei muito feliz porque trs escolas j adotaram meu livro como contedo.

Isto - Um dos temas centrais do seu livro  a busca de um lugar na vida, um sentido. J encontrou o seu?

Ra - A vida  uma eterna busca de ter uma razo para viv-la. Minha inquietude tem a ver com isso. Me viciei nisso. Esporte, ao social, ao poltica, escrever livro, gosto de estar ampliando. Quando deixei os gramados, a Gol de Letra era a razo para eu acordar. Agora quero voltar a estudar. Estou sempre buscando. Porque a vida  esquisita, n? Ela  eterna, pelo menos no nosso imaginrio, a gente precisa acreditar nisso. Mas, ao mesmo tempo, ela  esquisita, comea, acaba ali... Por que ento? Voc tem de buscar uma razo para viver. E nunca  a mesma coisa. 

Isto - E quando o sr. fala em voltar a estudar, j sabe o qu?

Ra - Estudei um pouco de filosofia, gosto de tudo o que  relacionado a humanas. J pensei em economia. Ainda no decidi, mas tem temas, como polticas pblicas de esportes e gesto pblica, que me interessam. Se voc me perguntar, o que estudou na vida que mais te deu satisfao e se sentiu crescendo, foi filosofia. 

Isto - Como lida com a ausncia de seu irmo Scrates passados mais de um ano de sua morte?

Ra - A perda do Scrates me cutucou um pouco. Tudo o que ele deixou de mensagem, de atitude. Resolvi deixar esse lado, a irreverncia do Scrates, me provocar mais, que no  o natural em mim, mas  o legado que ele deixou para os prximos e para muita gente. Vira e mexe passa na minha cabea: voc pode provocar mais, ser provocador. A morte dele foi difcil, mas foi uma escolha de vida, de estilo de vida, que no o impedia de dar suas opinies, de influenciar pessoas.

Isto - Seu irmo morreu em decorrncia do abuso de lcool. Esse tema ainda  tabu no futebol?

Ra - Drogas  minoria. J lcool  como na sociedade. Eu tambm sempre bebi, mas da minha maneira, nos meus momentos, nada fora do que existe na sociedade. Com o esportista, o abuso de lcool se transforma em fraqueza. Tem menos casos, mas marca mais porque os esportistas so smbolos de sade. Mas no podemos esquecer que so humanos.

